Quase todos os remédios experimentais contra o zumbido tentam acalmar o cérebro. O AC102 tenta consertar o ouvido. Em animais com lesão por ruído, uma única dose restaurou conexões perdidas no ouvido interno e os sinais de zumbido quase desapareceram. Veja o que esse estudo mostrou, onde estão os testes em humanos e o que isso pode significar para quem, como eu, convive com esse som há décadas.
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Traduzido do original em inglês. Zumbido também é chamado de tinnitus.
Promissor em animais, seguro num primeiro teste em humanos, ainda não comprovado contra o zumbido em pessoas.
Quase todo medicamento testado contra o zumbido age no cérebro. Anticonvulsivantes, benzodiazepínicos, antidepressivos e a primidona, sobre a qual escrevi em uma edição anterior, procuram acalmar a atividade nervosa excessiva ou a angústia que vem com ela. Na melhor das hipóteses, abaixam o volume enquanto são tomados.
O AC102 começa pela outra ponta. Ele foi criado para proteger e restaurar o próprio ouvido interno, mais precisamente as minúsculas conexões chamadas sinapses em fita (ribbon synapses), que ligam as células ciliadas sensoriais da cóclea às fibras do nervo auditivo.
Essas conexões são frágeis. Um barulho forte pode rompê-las mesmo quando as células ciliadas sobrevivem e a audiometria dá normal. Os pesquisadores chamam isso de perda auditiva oculta. Quando o cérebro deixa de receber o sinal normal do ouvido, o sistema auditivo parece aumentar o próprio ganho interno para compensar, e uma das principais teorias diz que é essa compensação que ouvimos como zumbido.
Se o sinal que falta é uma das causas do som, restaurá-lo pode tirar do cérebro o motivo para produzi-lo. Essa é a ideia por trás do AC102.
O AC102 é uma molécula pequena de uma família de fármacos chamada piridoindóis. Em estudos anteriores com animais, reduziu a inflamação e a morte de células no ouvido interno, melhorou a forma como essas células produzem energia e estimulou a regeneração de fibras nervosas. É aplicado numa única injeção através do tímpano, no ouvido médio, misturado a um gel que é líquido em temperatura ambiente e engrossa na temperatura do corpo. Assim, ele fica encostado na cóclea e é absorvido devagar.
O estudo, publicado em maio de 2025 no International Journal of Molecular Sciences, foi feito pelo Hospital Universitário de Erlangen, na Alemanha, em parceria com a AudioCure. Os pesquisadores expuseram gerbils-da-mongólia a um barulho forte em um ouvido: o suficiente para romper sinapses em fita e provocar comportamento de zumbido, mas não para matar células ciliadas. Depois, trataram o ouvido lesionado com o gel de AC102 ou com o mesmo gel sem o remédio.
Animais não conseguem contar o que ouvem, então o zumbido foi medido de forma indireta. Um som alto e repentino faz o gerbil se assustar, e um breve silêncio logo antes normalmente suaviza esse susto. Um animal cujo silêncio está tomado por um chiado percebe pior essa pausa. É um teste muito usado, mas é um substituto do zumbido, não um relato dele.
Experimento com dose única. Os dois grupos começaram no mesmo nível; só o grupo tratado se recuperou.
Medida de comportamento em gerbils, não relatos de zumbido em pessoas. Fonte: Tziridis et al., Int J Mol Sci, 2025.
O que faz este estudo se destacar é o padrão. Poucos dias após o barulho, cerca de seis em cada dez animais dos dois grupos mostravam comportamento de zumbido, ou seja, o tratamento não impediu que ele surgisse. Nas cinco semanas seguintes, os animais sem tratamento não melhoraram. Na quinta semana, só um dos quinze animais tratados ainda apresentava sinais.
Um segundo experimento, com três doses semanais em outro grupo de animais, apontou na mesma direção: após cinco semanas, 1 de 11 gerbils tratados ainda mostrava comportamento de zumbido, contra 6 de 12 sem tratamento.
Quando os pesquisadores examinaram as cócleas depois, os ouvidos sem tratamento tinham perdido uma quantidade significativa de sinapses em fita. Os ouvidos tratados perderam bem menos; no grupo de três doses, terminaram até com um pouco mais de sinapses do que o ouvido não exposto dos mesmos animais. A audição dos ouvidos tratados também voltou ao nível inicial, ou a poucos decibéis dele, enquanto os ouvidos sem tratamento ainda tinham perda mensurável após cinco semanas.
São resultados impressionantes, e vêm com limites que precisam ser ditos com clareza.
Segurança. O primeiro estudo em humanos, feito no Centro Médico Universitário Radboud (Países Baixos) e na Universidade de Medicina de Viena, aplicou uma única injeção em 42 voluntários saudáveis: 21 receberam AC102 e 21 só o gel. Não houve efeitos colaterais graves. Quase todos tiveram algo leve e passageiro, principalmente desconforto no ouvido, além de alguma dor de ouvido, tontura, sensação de ouvido tampado e, em alguns casos, zumbido temporário. Isso aconteceu com frequência parecida com o gel puro e com o remédio, e os pesquisadores atribuíram esses efeitos à injeção e ao gel que preenche o ouvido médio. Quase tudo passou em uma semana, e a audição voltou ao normal em todos.
Eficácia. O estudo de fase 2 testa o AC102 contra a surdez súbita, não contra o zumbido. Os pacientes recebem uma injeção de AC102 até cinco dias depois de perder a audição, e os resultados são comparados com comprimidos de corticoide, o tratamento padrão hoje. É duplo-cego e foi planejado para cerca de 200 pacientes em mais de 45 hospitais na Áustria, Alemanha, Tchéquia, Países Baixos, Polônia, Sérvia e Ucrânia.
Sistema de Informação de Ensaios Clínicos da UE · 2024-513658-31-00 · consultado em outubro de 2026
Situação do estudo: encerrado. Data de término: 16 de janeiro de 2026. Nenhum resumo de resultados publicado.
O registro americano, ClinicalTrials.gov (NCT05776459), ainda não foi atualizado e continua mostrando o estudo como ativo. De qualquer forma, nove meses depois da data de término europeia, nenhum resultado foi publicado. Isso não é incomum: empresas costumam levar um ano ou mais para analisar e divulgar os dados. Mas significa que a pergunta central, se o AC102 funciona em pessoas, continua sem resposta.
Muitas pessoas com surdez súbita também desenvolvem zumbido, então os resultados da fase 2 podem trazer a primeira pista sobre o zumbido em humanos. Ainda não foi registrado nenhum estudo dedicado ao zumbido.
Esta é a pergunta que mais me importa, e a resposta honesta é que ninguém sabe.
O zumbido de longa duração provavelmente não é só um problema do ouvido. Com os anos, as redes do cérebro ligadas à atenção, à emoção e à audição podem se reorganizar em torno do chiado. Mesmo que o AC102 conseguisse restaurar algumas conexões perdidas numa lesão antiga, não se sabe se esse novo sinal desfaria padrões que o cérebro mantém há vinte ou trinta anos.
Também há uma dúvida sobre o que o AC102 faz exatamente. No estudo com gerbils, não está totalmente claro se o remédio preservou sinapses que estavam prestes a morrer ou regenerou outras que já tinham se perdido. Para quem sofreu a lesão há muito tempo, essa diferença é tudo. Proteger não adianta para conexões que sumiram há décadas; regenerar talvez adiante.
Mesmo assim, eu não descartaria a possibilidade. Se as sinapses danificadas continuam privando o cérebro do sinal normal, restaurá-las poderia ajudar mesmo tarde, talvez não silenciando o som, mas dando ao cérebro um motivo para parar de amplificá-lo. É uma hipótese razoável. Ainda não é um efeito comprovado, e só um estudo com pessoas que têm zumbido crônico pode testá-la.
O AC102 merece estar na lista curta de tratamentos experimentais para acompanhar. Ele mira uma lesão real e mensurável em vez de mascarar um sintoma, passou no primeiro teste de segurança em pessoas, e seus resultados em animais estão entre os mais fortes que já vi para qualquer remédio contra o zumbido.
Mas vale separar duas promessas diferentes. Prevenir o zumbido logo após uma lesão por ruído ou uma surdez súbita é para onde as evidências apontam, e é a possibilidade mais próxima. Reverter o zumbido crônico é muito mais incerto e ainda não foi estudado.
Quando os resultados da fase 2 forem publicados, o Tinnitus Monthly vai contar o que eles mostram, sejam bons ou ruins.
Pesquisas e novidades sobre zumbido do mundo todo, explicadas com clareza. Uma edição por mês, por enquanto em inglês. Sem exagero e sem vender nada. Se você quer mais artigos em português, me conte.